quinta-feira, 15 de abril de 2010

A presença real de Cristo da Eucaristia

Desde que Jesus instituiu a Eucaristia na Santa Ceia, a Igreja nunca cessou de celebrá´la, crendo firmemente na presença do Senhor na Hóstia consagrada pelo sacerdote legitimamente ordenado pela Igreja. Nunca a Igreja duvidou da presença real do Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Senhor na Eucaristia. Desde os primeiros séculos os Padres da Igreja ensinaram esta grande verdade recebida dos Apóstolos. São Cirilo de Jerusalém (315´386) assim falava aos fiéis: ´Na cavidade da mão recebe o corpo de Cristo; dize Amém e com zelo santifica os olhos ao contato do corpo santo... Depois aproxima´te do cálice. Dize Amém e santifica´te tomando o sangue de Cristo. A seguir, toca de leve os teus lábios, ainda úmidos, com tuas mãos, e santifica os olhos, a testa e os outros sentidos (ouvidos, garganta, etc.)´ Santo Efrém Sírio (306´444) falava da Eucaristia como ´Glória ao remédio da vida´.

Santo Agostinho (354´430) a chamava de ´ o pão de cada dia, que se torna como o remédio para a nossa fraqueza de cada dia.´ E ainda dizia: ´Ó reverenda dignidade do sacerdote, em cujas mãos o Filho de Deus se encarna como no Seio da Virgem´ . ´A virtude própria deste alimento divino é uma força de união que nos une ao Corpo do Salvador e nos faz seus membros a fim de que nos transformemos naquilo que recebemos´. São Cirilo de Alexandria (370´444) dizia que ao comungarmos o corpo de Cristo nos transformamos em ´Cristóforos´, portadores de Cristo. Na sua ´Profissão de Fé´, o conhecido ´Credo do Povo de Deus´, o Papa Paulo VI afirmou: ´Cremos que como o pão e o vinho consagrados pelo Senhor, na Última Ceia, foram mudados no seu Corpo e no seu Sangue, que iam ser oferecidos por nós na Cruz, assim também o pão e o vinho consagrados pelo sacerdote se mudam no Corpo e no Sangue de Cristo glorioso que está no céu, e cremos que a misteriosa presença do Senhor naquilo que misteriosamente continua a aparecer aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial´. (cf. Dz. Sch. 1651) Em seguida, Paulo VI deixa claro que se afastam da fé católica aqueles que não aceitam esta verdade. ´Toda explicação teológica que procura alguma inteligência deste mistério deve, para estar de acordo com a fé católica, admitir que na própria realidade, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho cessaram de existir depois da consagração, de tal modo que estão realmente diante de nós o Corpo e o Sangue adoráveis do Senhor Jesus, sobre as espécies sacramentais do pão e do vinho, conforme Ele assim o quis, para se dar a nós em forma de alimento e para nos associar à unidade do seu Corpo Místico´. (cf. S. Th., III, 73, 3) Com essas palavras o Papa deixou muito claro que a Eucaristia não se trata apenas de um ´sinal´, ou ´símbolo´, nem mesmo ´lembrança´, mas da presença real e substancial do Senhor.

Ele ainda acrescenta o seguinte: ´A única e indivisível existência do Senhor glorioso que está no céu não é multiplicada, mas torna´se presente pelo Sacramento, em todos os lugares da terra onde a Missa é celebrada. E permanece presente, depois do sacrifício, no Santíssimo Sacramento, que está no Sacrário, coração vivo de cada uma das nossas igrejas. E é para nós um dulcíssimo dever honrar e adorar na sagrada Hóstia, que os nossos olhos vêem, o Verbo Encarnado, que eles não podem ver e que, sem deixar o céu, se tornou presente no meio de nós.´ (Credo do Povo de Deus, Ed. Cléofas, 1998) Na Última Ceia, Jesus foi muito claro: ´Isto é o meu corpo´. ´Isto é o meu sangue´ (Mt 26,26´28). Ele não falou de ´símbolo´, nem de ´sinal´, nem de ´lembrança´. São Paulo atesta a presença do Senhor na Eucaristia quando afirma: ´O cálice de benção, que bebemos, não é a comunhão do Sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a comunhão do Corpo de Cristo?´ (1Cor 10,16). E o Apóstolo, que não estava na Última Ceia, recebeu esta certeza por revelação especial do Senhor a ele: ´O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu´o e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Igualmente também, depois de ter ceado, tomou o cálice e disse: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto em memória de mim todas as vezes que o beberdes´(1Cor 11,23´29). Sem dúvida a Eucaristia é o maior e o mais belo milagre que o Senhor realizou e quis que fosse repetido a cada Missa, para que Ele pudesse estar entre nós, a fim de nos curar e nos alimentar. ´A Eucaristia é \\\'fonte e centro de toda a vida cristã\\\' (LG,11). Os restantes sacramentos, porém, assim como todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a Sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa´ (PO,5 e CIC n.1324).

O Catecismo da Igreja nos garante que ´Os milagres da multiplicação dos pães... prefiguram a superabundância deste pão único da Eucaristia´ (CIC, n.1335). Tudo o que foi dito até aqui está baseado principalmente nas próprias palavras de Jesus, naquele memorável discurso sobre a Eucaristia, na sinagoga de Cafarnaum, que São João relatou com detalhes no capítulo 6 do seu Evangelho: ´Eu sou o Pão vivo que desceu do céu... Quem comer deste Pão viverá eternamente; e o Pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo... O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia... Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida.´ Não há como interpretar de modo diferente estas palavras, senão admitindo a presença real e maravilhosa do Senhor na Hóstia sagrada. Lamentavelmente a Cruz e a Eucaristia foram e continuam a ser ´pedra de tropeço´ para os que não crêem, mas Jesus exigiu até o fim esta fé. Aos próprios Apóstolos ele disse: ´Também vós quereis ir embora?´ (Jo 6,67). Ao que Pedro responde na fé, não pela inteligência: ´Senhor, a quem iremos, só Tu tens palavras de vida eterna´(68). Nunca Jesus exigiu tanto a fé dos Apóstolos como neste momento. E, se exigiu tanto, sem dar maiores esclarecimentos como sempre fazia, é porque os discípulos tinham entendido muito bem do que se tratava, bem como o povo que o deixou dizendo:´Estas palavras são insuportáveis? Quem as pode escutar?´ (Jo 6,60). Também para cada um de nós a Eucaristia será sempre uma prova de fogo para a nossa fé; mas, crendo na palavra do Senhor e no ensinamento da Igreja, seremos felizes.

Quando Lutero pôs em dúvida a presença real e permanente do Senhor na Eucaristia, o Concílio de Trento (1545´1563) assim se expressou: ´Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu Corpo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera´se a conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue; e esta mudança, a Igreja católica chama´lhe com justeza e exatidão, transubstanciação´ (DS, 1642; CIC n.1376). Acima de tudo é preciso recordar que a Igreja recebeu do Senhor o carisma da infalibilidade em termos de fé e de moral, a fim de não permitir que os seus filhos sejam enganados no caminho da salvação (cf. Jo 14,15.25; 16,12´13). Portanto, o que a Igreja garante há vinte séculos, jamais podemos duvidar, sob pena de estarmos duvidando do próprio Jesus. Para auxiliar a nossa fraqueza, Deus permitiu que muitos milagres eucarísticos acontecessem entre nós: Lanciano (sec VIII), Ferrara (1171), Orvieto (1264), Offida (1273), Sena (1330 e 1730),Turim (1453), etc., que atestam ainda hoje o Corpo vivo do Senhor na Eucaristia, comprovado pela própria ciência. Há tempos, foi traçado na Europa um ´mapa eucarístico´, que registra o local e a data de mais de 130 milagres, metade deles ocorridos na Itália.

A Comunhão Eucarística na mão

A Comunhão foi ministrada nas mãos dos fiéis até o século IX. Por causa de abusos e profanações, a partir daí a Igreja preferiu ministrar a Comunhão na boca. Depois do Concílio Vaticano II a prática antiga da Comunhão nas mãos foi restaurada, sob certas condições. No dia 3 de abril de 1985 a Sagrada Congregação Para o Culto Divino, publicou a segunte Notificação:

Protocolo 720/85

A Santa Sé , a partir de 1969, mantendo sempre em toda a Igreja o uso de distribuir a Comunhão, concede às Conferências Episcopais que o peçam, e em condições determinadas, a faculdade de distribuir a Comunhão na mão dos fiéis. Esta faculdade é regida pelas Instruções Memoriale Domini e Immensae Caritatis (29 de maio de 1969, AAS 61, 1969, 541´546; 29/1/1973, AAS 65, 1973; 264´271) assim como pelo Ritual De Sacra Communione publicado aos 21/6/1973, n.21. Todavia parece útil chamar a atenção para os seguintes pontos: 1. A Comunhão na mão deve manifestar, tanto quanto a Comunhão recebida na boca, o respeito para com a real presença de Cristo na Eucaristia. Por isso será preciso insistir, como faziam os Padres da Igreja, sobre a nobreza dos gestos dos fiéis. Assim, os recém batizados do fim do século IV recebiam a norma de estender as duas mãos fazendo “com a esquerda um trono para a direita, pois esta devia receber o Rei” (5ª Catequese Mistagógica de Jerusalém, n.21; PG 33, Col. 1125; São João Crisóstomo, homilia 47, PG 63,Col. 898, etc.). 2. Seguindo ainda os Padres, será preciso insistir sobre o Amém que o fiel diz em resposta às palavras do ministro: “O Corpo de Cristo”. Este Amém deve ser a afirmação da fé: “Quando pedes a Comunhão, o sacerdote te diz “O Corpo de Cristo”, e tu dizes “Amém”, “é isto mesmo”; o que a língua confessa, conserve´o o afeto” (S. Ambrósio, De Sacramentis 4,25).

3. O fiel que recebe a Eucaristia na mão, levá´la´á à boca antes de voltar ao seu lugar; apenas se afastará, ficando voltado para o altar, a fim de permitir que se aproxime aquele que o segue.

4. É da Igreja que o fiel recebe a Eucaristia, que é a Comunhão com o Corpo de Cristo e com a Igreja. Eis porque o fiel não deve ele mesmo retirar a partícula de uma bandeja ou de uma cesta, como o faria se se tratasse de pão comum ou mesmo de pão bento, mas ele estende as mãos para receber a partícula do ministro da Comunhão.

5. Recomendar´se´á a todos, especialmente às crianças, a limpeza das mãos, em respeito à Eucaristia.

6. Será preciso previamente ministrar aos fiéis, uma catequese do rito, insistir sobre os sentimentos de adoração e a atitude de respeito que se exige (cf. Dominicae coenae n.11). Recomedar´se´lhes´á que cuidem de que não se percam fragmentos de pão consagrado (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, 2/5/1972, Prot.n. 89/71, em Notitiae 1972, p. 227).

7. Os fiéis jamais serão obrigados a adotar a prática da comunhão na mão; ao contrário, ficarão plenamente livres para comungar de um ou de outro modo. Essas normas e as que foram recomendadas pelos documentos da Sé Apostólica atrás citados, têm por finalidade lembrar o dever do respeito para com a Eucaristia independentemente do modo como se recebe a Comunhão. Insistam os pastores de almas não só sobre as disposições necessárias para a recepção frutuosa da Comunhão, que, em certos casos, exige o recurso ao Sacramento da Penitência; recomendem também a atitude exterior de respeito que, em seu conjunto, deve exprimir a fé do cristão na Eucaristia. Da sede da Congregação para o Culto Divino, aos 3 de abril de 1985. († Agostinho Mayer ´ Pró Prefeito; † Virgílio Noé ´ Secretário). (Transcrito da Revista Pergunte e Responderemos, n º 283, 1985, p.512). Observação: Em nota publicada no número de março´abril de 1999, no boletim Notitiae, a Congregação Para o Culto Divino reafirmou o que prescreve o n.7 na Notificação acima, respondendo sobre a obrigatoriedade de receber a Comunhão nas mãos: “Dos documentos da Santa Sé depreende´se claramente que nas dioceses em que o pão eucarístico é depositado nas mãos dos fiéis, a estes fica absolutamente garantido o direito de o receber sobre a língua. Aqueles que obrigam os comungantes a receber a santa Comunhão unicamente nas mãos como também aqueles que recusam aos fiéis a Comunnhão nas mãos nas dioceses que utilizam tal indulto, procedem contrariamente às normas estabelecidas. Segundo as normas referentes à distribuição da Santa Comunhão, estejam os ministros ordinários e extraordinários particularmente atentos a que os fiéis consumam imediatamente a partícula consagrada, de modo que ninguém se afaste com as espécies eucarísticas nas mãos. Em todo caso é para desejar que todos tenham presente que a tradição secular consiste em receber a Comuhão sobre a língua. O sacerdote celebrante, caso exista perigo de sacrilégio, não dê a Comunhão nas mãos dos fiéis e exponha´lhes as razões porque assim procede.” (Notitiae nº 392.393/1999, transcrito de Pergunte e Responderemos, nº 457, junho de 2000)

domingo, 4 de abril de 2010

40 anos da Renovação Carismática Católica

A Renovação Carismática Católica completa 40 anos. Ela começou nos Estados Unidos e se espalhou rapidamente por todo o mundo católico como um novo Pentecostes trazendo uma bela renovação para a Igreja. Tudo começou quando em 18 de fevereiro de 1967, trinta estudantes e professores da universidade de Duquesne (Pensilvânia, Estados Unidos), fizeram um retiro espiritual para aprofundar na força do Espírito dentro da Igreja primitiva, lendo e meditando os Atos dos Apóstolos.

Já em 1973 o Papa Paulo VI recebia no Vaticano, com o falecido cardeal Leo Joseph Suenens, os lideres da RCC no mundo. Paulo VI os acolheu com alegria.

Podemos dizer que o Papa João XXIII foi precursor da RCC. Ao abrir o Concilio Vaticano II, em 1963 ele rezou:

“Repita-se no povo cristão o espetáculo dos Apóstolos reunidos em Jerusalém, depois da ascensão de Jesus ao céu, quando a Igreja nascente se encontrou reunida em comunhão de pensamento e de oração com Pedro e em torno de Pedro, pastor dos cordeiros e das ovelhas. Digne-se o Divino Espírito escutar da forma mais consoladora a oração que sobe a Ele de todas as partes da terra. Que Ele renove em nosso tempo os prodígios como de um novo Pentecostes, e conceda que a Santa Igreja, permanecendo unânime na oração, com Maria, a Mãe de Jesus, e sob a direção de Pedro, dilate o Reino do Divino Salvador, Reino de Verdade e Justiça, Reino de amor e de paz”.

No pontificado de João Paulo II a RCC foi reconhecida pelo “Conselho Pontifício para os Leigos”, e hoje envolve mais de 120 milhões de católicos em todo o mundo. Ela tem um organismo internacional; existe o escritório dos «Serviços Internacionais da Renovação Carismática Católica» (ICRSS, por suas siglas em inglês), com sede no Vaticano.

O Papa João Paulo II sempre acolheu amorosamente a RCC; e muitas vezes recebeu os seus líderes em audiência. É importante recordar as suas palavras por causa de suas preciosas orientações.

Em 1992 João Paulo II disse aos líderes da RCC:

“Na alegria e na paz do Espírito Santo, dou as boas vindas ao Conselho Internacional da Renovação Carismática Católica. No momento em que comemorais o 25° aniversário de fundação da Renovação Carismática Católica, uno-me de bom grado a vós, na ação de graças a Deus pelos inúmeros frutos que ela deu à vida da Igreja. A Renovação surgiu nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, e foi um dom particular do Espírito Santo à Igreja. Foi sinal do desejo que muitos católicos tinham de viver, de maneira mais plena, a sua própria dignidade e vocação batismal, como filhos e filhas adotivas do Pai, de conhecer a força redentora de Cristo, nosso Salvador, numa experiência mais intensa de oração pessoal e coletiva, e de seguir o ensinamento das Escrituras mediante a sua leitura, à luz do mesmo Espírito que inspirou o seu autor.

Certamente um dos resultados mais importantes desse despertar espiritual foi a aumentada sede de santidade, visível nas vidas das pessoas individualmente e na Igreja inteira... Neste momento da história da Igreja, a Renovação Carismática pode desempenhar um papel significativo na promoção da defesa, extremamente necessária, da vida cristã, nas sociedades em que o secularismo e o materialismo enfraqueceram a capacidade que as pessoas têm de responder ao Espírito e de discernir o chamamento amoroso de Deus. O vosso contributo para a re-evangelização da sociedade será efetuado, em primeiro lugar, mediante o testemunho pessoal do Espírito que habita em nós e mediante a demonstração da Sua presença, com obras de santidade e de solidariedade... Independentemente da forma que a Renovação Carismática assumir - nas orações de grupo, nas comunidades conventuais de vida e de serviço - o sinal da sua fecundidade espiritual será sempre o fortalecimento da comunhão com a Igreja universal e com as Igrejas locais...

Ao mesmo tempo o aprofundamento da vossa identidade católica, haurindo da riqueza espiritual da Tradição católica, é uma parte insubstituível do vosso contributo ao diálogo ecumênico autêntico que, alimentado pela graça do Espírito Santo, deve levar à perfeição da “comunhão na unidade, na confissão de uma só fé, na comum celebração do culto divino e na fraterna concórdia da família de Deus”(Unitatis redintegratio, 2).(L’Osservatore Romano, n. 15, 12/4/1992, 4 (184))

Aos participantes do IX Congresso Internacional da Renovação Carismática em outubro 1998, o Papa disse:

“Vocês pertencem a um movimento eclesial. A palavra eclesial implica numa tarefa precisa de formação cristã, envolvendo uma profunda convergência de fé e vida. A fé entusiástica que dá vida às suas comunidades deve ser acompanhada por uma formação cristã que seja abrangente e fiel ao ensinamento da Igreja.”(L’Osservatore Romano, nov 1998.)

Quando da Conferência Internacional da Renovação na Itália em outubro de 1998, ele lhes disse: "A Renovação Carismática Católica tem ajudado muitos cristãos a redescobrirem a presença e o poder do Espírito Santo em suas vidas, na vida da Igreja e do mundo; e esta redescoberta tem levantado neles uma fé em Cristo cheia de alegria, um grande amor pela Igreja e uma generosa dedicação a sua missão evangelizadora. No ano de 1998 em que dedicamos ao Espírito Santo, eu me uni a vocês no louvor à Deus pelos preciosos frutos que Ele quis trazer à maturidade em suas comunidades e através delas, às Igrejas particulares. Como líderes da Renovação Carismática Católica, uma de suas primeiras tarefas é a de preservar a identidade das comunidades carismáticas espalhadas pelo mundo inteiro, incentivando-as sempre a manter uma ligação estreita e hierárquica com os bispos e com o Papa.”

Os cardeais da Cúria Romana sempre participaram dos eventos da RCC. No XXVII Congresso Nacional italiano, em Rímini, em 30 de abril de 2004 (ZENIT.org) estiveram presentes o cardeal Giovanni Battista Re, então Prefeito da Congregação para os Bispos, o cardeal Francis Arinze, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e o padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Isto mostra o real apoio da Santa Sé a RCC. Ninguém pode negar isto.

A Renovação Carismática não é um movimento uniforme; mas, como dizia o cardeal Suenens e diz o padre Raniero Cantalamessa, “é uma corrente de graça para toda a Igreja católica.” Ela não é um simples movimento a mais da Igreja; é a própria Igreja em movimento pelo poder do Espírito Santo. Todos os cristãos de todos os movimentos precisam ser renovados no Espírito Santo; e esta é a missão da RCC.

Vale a pena ler o testemunho pessoal do Pe. Raniero Cantalamessa, que desde 1978 é o Pregador da Casa Pontifícia, em entrevista concedida à agencia Zenit em Castel Gandolfo, em 25set 2003:

“O batismo no Espírito não é uma invenção humana, é uma invenção divina. É uma renovação do batismo e de toda a vida cristã, de todos os sacramentos. Para mim – ele disse - foi também uma renovação de minha profissão religiosa, de minha confirmação, de minha ordenação sacerdotal. Todo o organismo espiritual se reaviva como quando o vento sopra sobre uma chama. Por que o Senhor decidiu atuar neste tempo desta maneira tão forte? Não sabemos. É a graça de um novo Pentecostes... É uma vinda do Espírito Santo que se traduz em arrependimento dos pecados, que faz ver a vida de uma maneira nova, que revela Jesus como o Senhor vivo - não como um personagem do passado - e a Bíblia se converte em uma palavra viva. A verdade é que não se pode explicar. Para mim tudo o que passou desde 1977 é um fruto de meu batismo no Espírito.

Era professor na Universidade. Dedicava-me à pesquisa científica na história das origens cristãs. E quando aceitei não sem resistência esta experiência, depois tive o chamado de deixar tudo e colocar-me à disposição da pregação, e também a nomeação como pregador da Casa Pontifícia chegou depois de que tinha experimentado esta «ressurreição». Vejo isso como uma grande graça. Depois de minha vocação religiosa, a Renovação Carismática foi a graça mais assinalada de minha vida... Quero dizer aos fiéis, aos bispos, aos sacerdotes, que não tenham medo. Desconheço por que há medo. Talvez em alguma medida porque esta experiência começou entre outras confissões cristãs, como pentecostais e protestantes. Contudo, o Papa não tem medo. Falou dos movimentos eclesiais, inclusive da Renovação Carismática, como de sinais de uma nova primavera da Igreja, e muito com freqüência faz referência na importância disso. E Paulo VI afirmou que era uma oportunidade para a Igreja. Não há que ter medo.”

Todas essas palavras do Papa João Paulo II e do Pregador do Papa, mostram a grande importância da RCC para a Igreja.

O Papa Bento XVI também ama a RCC; ainda como cardeal e Prefeito da Congregação da Fé, em entrevista ao jornalista italiano Vitório Messori disse: “Certamente [a Renovação no Espírito] trata-se de uma esperança, de um positivo sinal dos tempos, de um dom de Deus para a nossa época. È a redescoberta da alegria e da riqueza da oração contra a teoria e práxis sempre mais enrijecidas e ressecadas no tradicionalismo secularizado. Eu mesmo constatei pessoalmente a sua eficácia: em Munique, algumas boas vocações ao sacerdócio vieram-me do movimento. Como em todas as realidades entregues ao homem, dizia eu, também esta é exposta a equívocos, a mal-entendidos e a exageros. O perigo, porém, seria ver apenas os riscos, e não o dom que nos é oferecido pelo Espírito. A necessária cautela não muda, portanto, o juízo positivo do conjunto.” (V. Messori, J. Ratzinger, A Fé em Crise? O Cardeal Ratzinger se interroga. E.P.U, São Paulo, 1985, pg. 117-118)

O atual Presidente do Pontifício Conselho dos Leigos, o Arcebispo e cardeal Stanilaw Rylko, que foi secretário de João Paulo II aprecia profundamente a RCC como já disse várias vezes.

Há 34 anos eu estou na RCC; participei de dezenas de Experiências no Espírito Santo; viajei e viajo pelo Brasil todo e por alguns paises pregando retiros às pessoas e grupos ligados à RCC; e sou testemunha ocular do bem que faz a Igreja. Os ginásios de esporte, os auditórios e os campos de futebol se enchem de milhares de pessoas que rezam com fervor, cantam alegremente e louvam a Deus do fundo da alma. Surgem por todo o mundo Comunidades de leigos, consagrados ao serviço de Deus e da Igreja; elas são a nova força da Igreja; satisfazem o que pediu o Papa João Paulo II, “uma nova evangelização”, com novo ardor, novos métodos e nova expressão; é tudo o que acontece hoje na RCC. Seus frutos são enormes: conversões em massa, famílias restauradas em Deus, jovens que abandonam o crime, a droga, a bebida e todas as formas de vícios, e tantos que se consagram a Deus.

Pode haver sim erros e até alguns abusos na RCC por parte de pessoas despreparadas e que não têm uma boa formação religiosa; mas cabe aos sacerdotes corrigir os erros e formar o povo, sem destruir o que é bom.

Prof. Felipe Aquino

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sede Santos, porque eu sou Santo

O nosso Catecismo diz que:

´O aspecto mais sublime da dignidade humana está na vocação do homem à comunhão com Deus´(nº 27).

É o sentido da vida humana: a comunhão com Deus.

Se esta comunhão não for atingida, a vida humana estará frustrada na sua própria ´razão de ser´.

Essa comunhão com Deus, em última instância, é um chamado à santidade, sem a qual o homem não pode viver a vida divina. A carta aos hebreus diz:

´Procurai ... a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor´(Hb 12,14).

Quando Deus chamou Abrão para formar o Seu povo, a partir dele, a primeira exigência que fez foi:´Anda na minha presença e sê íntegro´(Gen 17,1). Esse ´sê íntegro´ mostra que para viver na presença de Deus e serví´Lo, é preciso ser santo. Deus é Aquele que é três vezes Santo. Santíssimo!

No Sermão da Montanha, ao proclamar o ´código da vida cristã´, Jesus exigiu de todos: ´sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito´ (Mt 5,48). Para Jesus o padrão da perfeição é o próprio Deus, e devemos nos assemelhar a Ele.

Desde o Antigo Testamento é forte o chamado à santidade. Deus diz ao povo, através de Moisés:

´Sede santos porque Eu sou santo´ (Lev 11,44),

S. Pedro repete essas palavras aos fiéis:

´A exemplo da santidade daquele que vos chamou sede também vós santos em todas as vossas ações´ (1 Pe 1,15).

Essas palavras indicam que somos ´chamados à santidade´ para atingirmos o destino que nos está proposto pelo Criador: a vida de plena comunhão com Deus.

No início de três epístolas: aos efésios, aos romanos e aos coríntios, São Paulo reafirma esta nossa vocação. Aos romanos, logo na saudação ele diz: ´ a todos os que estão em Roma, chamados a serem santos´ (Rom 1,7). Aos coríntios ele repete: ´ aos fiéis santificados em Cristo Jesus, chamados à santidade´ (1 Cor 1,2); e, aos efésios: ´Bendito seja Deus ... que nos escolheu em Cristo antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante de seus olhos´ (Ef 1,4).

É uma repetição sistemática sobre o chamado de Deus a que sejamos santos. Isto leva São Paulo a dizer:

´Vivei uma vida digna da vocação para a qual fostes chamados´(Ef 4,1). ´Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que delas nem sequer se fale entre vós, como convém a santos´ (Ef 5,3).

Para o Apóstolo, santos são todos os homens consagrados a Deus pelo batismo. Ninguém está dispensado de buscar a santidade para a qual foi chamado por Deus.

São Domingos Sávio, o jovem discípulo de D. Bosco, que morreu santo aos 15 anos de idade, foi capaz disso porque fez da santidade ´a razão de ser da sua vida´. Era seu lema: ´antes morrer do que pecar´; e dizia ainda, com toda convicção: ´Se eu não conseguir a santidade, nada terei feito neste mundo´.

Que exemplo de uma criatura tão jovem!

´Está é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza; que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santificação e honestidade, sem se deixar levar pelas paixões desregradas como os pagãos...´ (1 Tes 4,3).

Na conquista da santidade o Apóstolo diz que precisamos ´resistir até ao sangue na luta contra o pecado´ (Hb 12,4), e nos adverte de que Deus nos corrige a cada momento com esta finalidade. Citando os Provérbios diz:

´Filho meu, não desprezes a correção do Senhor; nem desanimes, quando por Ele és repreendido; pois o Senhor corrige os que ama e açoita todo aquele que reconhece por seu Filho´(Prov. 3,11´12).

Todas as provações e sofrimentos da vida, que Deus permite que nos atinjam, são para a nossa santificação; é o ensinamento dos santos e da Igreja.

Sem a cruz não há santificação, eles afirmam, porque somente ela consegue arrancar as ervas daninhas e curar as más inclinações de nossa alma.

O Apóstolo faz questão de afirmar que Deus Pai permite tudo isto ´para nosso bem, para nos comunicar sua santidade´ (Hb 12,10).

E por isso, não podemos desanimar neste combate, já que, como diz a Palavra: ´estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos´ (Hb 12,7).

O Senhor Jesus nos propõe a cruz ´de cada dia´ como o melhor caminho de santificação:

´Se alguém quer vir após mim, renegue´se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga´me ...´(Lc 9,23).

Sem aceitarmos com paciência e fé a ´cruz de cada dia´; isto é, tudo o que não gostamos, jamais poderemos galgar os degraus da santificação e fazer a vontade de Deus.

É um paradoxo para os que não têm fé, como disse o Apóstolo: ´a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que se salvam, isto é, para nós, é uma força divina´ (1 Cor 1,18).

Certa vez o Papa João Paulo II disse, citando Bernanos:

´A Igreja não precisa de reformadores, mas de santos´.

Os santos foram e são os únicos autênticos reformadores da Igreja. Os que mais fizeram pelo reino de Deus . Os homens e as mulheres que ´abalaram o mundo´, como disse Renè Fullop Muller: Santo Antão, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Santa Teresa de Ávila, São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, São João da Cruz, São Vicente de Paulo, etc.

Portanto, a primeira e maior preocupação de cada um que quer sevir a Deus e à Igreja, deve ser a de ´buscar a própria santidade´. O resto virá por acréscimo. O Papa João Paulo II disse, quando da beatificação de Madre Paulina:

´A santidade é a prova mais clara, mais convincente da vitalidade da Igreja, em todos os tempos e em todos os lugares´( L´Osservatore Romano, n°44,3/1/91).

Em outra ocasião, aos catequistas, ele reafirmou:

´Numa palavra, sede santos. A santidade é a forma mais poderosa para levar Cristo aos corações dos homens´ (idem, n°24, 14/06/92, pg 22).

´Aqueles que seguem fielmente a chamada à santidade, escrevem a história da Igreja na sua dimensão mais essencial; isto é aquela da sua intimidade com Deus´ (LR, n°8, 24/08/96).

´É possível restaurar as instituições com a santidade, e não, restaurar a santidade com as instituições´(S.Vicente).

Pecado, A doença da Alma

São Tomás de Aquino, na Exposição do Credo, diz que há duas mortes: a primeira é a do corpo, física, quando a alma se separa dele; a segunda, é a da alma, espiritual, quando esta se separa de Deus. A pior é a segunda, e tem como causa o pecado.

O Catecismo da Igreja nos mostra toda a gravidade do pecado:

´Aos olhos da fé, nenhum mal é mais grave do que o pecado, e nada tem conseqüências piores para os próprios pecadores, para a Igreja e para o mundo inteiro´ (§ 1488).

São palavras fortíssimas que mostram que não há nada pior do que o pecado.

Por outro lado, o Catecismo afirma que ele é uma realidade:

´O pecado está presente na história dos homens: seria inútil tentar ignorá´lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes.´ (CIC, §386)

Deus disse a Santa Catarina de Sena, nos Diálogos:

´O pecado priva o homem de Mim, sumo Bem, ao tirar´lhe a graça´.

São Paulo, numa frase lapidar explica toda a hediondez do pecado e razão de todos os sofrimentos deste mundo:

´O salário do pecado é a morte´ (Rom 6,23).

Tudo o que há de mal na história do homem e do mundo é conseqüência do pecado, que começou com Adão.

´Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram´ (Rom 5,12).

O Catecismo diz com toda a clareza:

´A morte é conseqüência do pecado. Intérprete autêntico das Sagradas Escrituras e da Tradição, o Magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem´. (CIC,§1008)

O Catecismo ensina que:

´A morte corporal, à qual o homem teria sido subtraído se não tivesse pecado (GS,18), é assim o último inimigo do homem a ser vencido´ (1Cor 15, 26).

Santo Agostinho dizia que:

´É desígnio de Deus que toda alma desregrada seja para si mesma o seu castigo.´

´O homem se faz réu do pecado no mesmo momento em que se decide a cometê´lo.´

Sintetizava tudo dizendo que ´pecar é destruir o próprio ser e caminhar para o nada.´

E dizia de si mesmo nas Confissões:

´Eu pecava, porque em vez de procurar em Deus os prazeres, as grandezas e as verdades, procurava´os nas suas criaturas: em mim e nos outros. Por isso precipitava´me na dor, na confusão e no erro.´

Toda a razão de ser da Encarnação do Verbo foi para destruir, na sua carne, a escravidão do pecado.

´Como imperou o pecado na morte, assim também imperou a graça por meio da justiça, para a vida eterna, através de Jesus Cristo, nosso Senhor´.(Rom 5,21)

O demônio escraviza a humanidade com a corrente do pecado. Jesus veio exatamente para quebrar essa corrente. São João deixa bem claro na sua carta:

´Sabeis que Ele se manifestou para tirar os pecados´ (1Jo 3,5). ´Para isto é que o Filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do diabo´ (1 Jo 3,8).

Essa ´obra do diabo´ é exatamente o pecado, que nos separa da intimidade e da comunhão com Deus, e nos rouba a vida bem aventurada.

Com a sua morte e ressurreição triunfante, Jesus nos libertou das cadeias do pecado e, pela sua graça podemos agora viver uma nova vida. É o que São Paulo ensina na carta aos colossences:

´Se, pois, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus´ (Col 3,1).

Aos romanos ele garante:

´Já não pesa mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. A Lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te libertou da lei do pecado e da morte´ (Rom 8,1).

Aos gálatas o Apóstolo diz:

´É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão´ (Gal 5,1).

Santa Catarina de Sena ensina que é tão grande a liberdade que Cristo conquistou para o homem, que nada e ninguém pode tirar´lhe:

´Tão grande é a liberdade humana, de tal modo ficou fortalecida pelo precioso sangue de Cristo, que demônio ou criatura alguma pode obrigar alguém à menor culpa, contra o seu parecer. Acabou´se a escravidão, o homem ficou livre´.

A vitória contra o pecado custou a vida do Cordeiro de Deus.

São João Batista, o Precursor, aquele que foi encarregado por Deus para apresentar ao mundo o Seu Filho, podia fazê´lo de muitas formas: ´Ele é o Filho de Deus´, ou, ´Ele é o esperado das nações´, como diziam; ou ainda: ´Ele é o Santo de Israel´, ou quem sabe: ´Eis aqui o mais belo dos filhos dos homens´, etc.; mas ao invés de usar essas expressões que designavam o Messias que haveria de vir, João preferiu dizer:

´Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo´ (Jo 1,29).

Aqueles que querem dar outro sentido à vida de Jesus, que não o Daquele que ´tira o pecado do mundo´, esvaziam a sua Pessoa , a sua missão e a missão da Igreja. A partir daí a fé é esvaziada, e toda a ´sã doutrina´ (1Tm4,6) é pervertida. Eis o perigo da ´teologia da libertação´, que exigiu a intervenção direta da Santa Sé e do próprio Papa João Paulo II, pois, na sua essência, esta ´teologia´ substitui o Cristo Redentor do pecado, por um Cristo apenas libertador dos males sociais e terrenos, reinterpreta o Evangelho e o Cristianismo dentro de uma exegese e de uma hermenêutica que não é aceita pelo Magistério da Igreja.

Os judeus não reconheceram Jesus como o Cristo de Deus, exatamente porque esperavam um Messias libertador político. Quando Jesus se apresentou como ´Aquele que tira o pecado do mundo´, com o sacrifício de si mesmo, se escandalizaram e o pregaram na cruz como um farsante.

Assim como a missão de Cristo foi libertar o homem do pecado, a missão da Igreja, que é o seu Corpo místico, a sua continuação na história, é também a de libertar a humanidade do pecado e levá´la à santificação. Fora disso a Igreja se esvazia e não cumpre a missão dada pelo Senhor.

Jesus, quer dizer, em hebraico, ´Deus salva´. Salva dos pecados e da morte. Na Anunciação o Anjo disse a Maria: ´... lhe porás o nome de Jesus´. (Lc 1, 31)

A José, o mesmo Anjo disse:

´Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados´. (Mt 1, 21)

A salvação se dá pelo perdão dos pecados; e já que ´só Deus pode perdoar os pecados´ (Mc 2, 7), Ele enviou o Seu Filho para salvar o seu povo dos seus pecados.

´Foi Ele que nos amou e enviou´nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados´ (1Jo 4,10).

´Este apareceu para tirar os pecados ´ (1Jo 3,5).

O Catecismo da Igreja lembra que ´foram os pecadores como tais os autores e como que os instrumentos de todos os sofrimentos por que passou o divino Redentor´. (CIC, § 598)

Jesus é o Servo de Javé sofredor, que se deixa levar silencioso ao matadouro como se fosse uma ovelha muda (Is 53,7; Jr 11,19), e carrega os pecados das multidões (Is 53, 12), e toda sua vida se resumiu em ´servir e dar a sua vida em resgate de muitos´ (Mc 10,45).

´Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados.´ (Mt 26,28)

A primeira coisa que Jesus fez no dia da sua ressurreição, foi enviar os Apóstolos para perdoar os pecados.

´Como o Pai me enviou, eu vos envio a vós... Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser´lhes´ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes ser´lhes´ão retidos´ (Jo 20, 22´23).

Isto mostra que a grande missão de Jesus era, de fato, ´tirar o pecado do mundo´, e Ele não teve dúvida de chegar até a morte trágica para isto. Agora, vivo e ressuscitado, vencedor do pecado e da mote, através do ministério da Igreja, dá o perdão a todos os homens.

Como é grande e precioso o Sacramento da Confissão, chamado de Reconciliação! Pela absolvição do sacerdote, ministro do Senhor, recebemos o Seu próprio perdão, conquistado na obediência da cruz.

Santo Agostinho tinha uma boa comparação para explicar a necessidade da confissão frequente:

´A neve recém caída derrete com facilidade. Mas se o sol não a atinge endurece. E, acumulando´se ano após ano, resistindo às investidas do clima, torna´se uma grande geleira, uma montanha de gelo.

Algo parecido ocorre com os pequenos pecados. Fáceis de eliminar no princípio, acumulados vão endurecendo pouco a pouco e, conservados por muito tempo longe da ação corretiva da graça, tornam´se quase incorrigíveis.´

Santa Catarina de Sena, ensina´nos que:

´Ao revoltar´se contra Deus o homem criou a rebelião dentro de si. Em conseqüência da perda do estado de inocência, a carne se rebelou contra o espírito´.

Embora o Batismo elimine o pecado original, as suas seqüelas continuam em nós: os sofrimentos, a doença, a morte, a propensão ao pecado (concupiscência ´ ´fomes peccati´). O Concílio de Trento, o mais longo da história da Igreja (1545´1563), ensina´nos que:

´Deixada para os nossos combates, a concupiscência não é capaz de prejudicar aqueles que, não consentindo nela, resistem com coragem pela graça de Cristo.´ Mais ainda: ´aquele que tiver combatido segundo as regras será coroado (2Tm 2,5)´ (CIC § 405,1264).

Santo Agostinho entendia que a permanência, da concupiscência em nós, mesmo após o Batismo, é uma oportunidade que temos de provar a Deus o nosso amor, lutando contra o pecado, por amor ao Senhor. Ele dizia que aquele que deixa o pecado por medo do castigo, e não por amor a Deus, acaba voltando a ele. É sobretudo, no rompimento radical com o pecado que damos a Deus a prova real do nosso amor filial.

Jesus disse aos apóstolos na última Ceia:

´Se me amais, guardareis os meus mandamentos´ (Jo 14,15).

Guardar os mandamentos é a prova do amor para com Jesus. Quem obedece aos seus mandamentos, foge do pecado.

O grande São Basílio Magno (329´379), bispo e doutor da Igreja, ensina em seus escritos que há três formas de amar a Deus: a primeira é como o mercenário, que espera a retribuição; a segunda, é como escravo que obedece por medo do chicote, o castigo de Deus; e o terceiro é o amor filial, daquele que obedece porque de fato ama o Pai. É assim que devemos amar a Deus; e, a melhor forma de amá´lo é repudiando todo pecado.

Jesus retomou os Dez Mandamentos que há mil anos antes Deus já tinha dado a Moisés, e levou´os à plenitude no Sermão da Montanha. Quando aquele jovem perguntou´lhe: ´Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?´ (Mt 19,16), Jesus respondeu dizendo:

´Se queres entrar na vida guarda os mandamentos´; e fez questão de citá´los: ´não matarás, não adulterás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra pai e mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo´ (Dt 5,16,20; Lv 19,18).

Os Dez Mandamentos são a salvaguarda contra o pecado. Por isso o primeiro compromisso de quem almeja a santidade deve ser o compromisso de viver, na íntegra, os Mandamentos.

Santo Agostinho dizia que essas são as duas asas que Deus nos deu para voar alto e chegar aos céus: o amor a Deus e o amor ao próximo.

Os Mandamentos nos ajudam a compreender e a viver este amor a Deus e aos irmãos, que nos levam à santidade e ao rompimento com a desordem, como Santo Agostinho chamava o pecado.

Se ainda pecamos, se ainda não somos santos, é porque ainda o amor a Deus e ao próximo não atingiu a sua plenitude em nós; pois, a santidade é uma história de amor.

Para compreendermos toda a hediondez do pecado, toda a sua feiura e maldade, temos que contemplar cuidadosamente Jesus crucificado. Este foi o preço que Ele pagou para tirar o pecado do mundo. Somente contemplando demoradamente as chagas do nosso divino Redentor, a sua coroa de espinhos, os seus açoites, os seus cravos, as suas feridas... é que poderemos ter em conta toda a tristeza que o pecado representa.

Diante da gravidade do pecado, o autor da Carta aos Hebreus chega a dizer aos cristãos:

´Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado´ ( Hb 12,4).

Nesta luta, justifica´se chegar até ao sangue, se for preciso, como Jesus o fez.

A Igreja, iluminada pela luz do Espírito Santo, seu Guia infalível, com sua experiência bi´milenar, nos ensina que os piores pecados são aqueles que ela chama de ´capitais´. Capital vem do latim ´caput´, que quer dizer cabeça. São pecados ´cabeças´, isto é, que geram muitos outros.

Assim como, por exemplo, a capital de um estado ou de um país, é de onde procedem as ordens, as decisões e comandos, assim também, desses pecados ´cabeças´, nascem muitos outros. Por isso, eles sempre mereceram, por parte da Igreja, uma atenção especial. São sete: soberba, ganância, impureza, gula, ira, inveja e preguiça.

Houve um santo que disse que, se a cada ano vencêssemos um desses sete, ao fim de sete anos, estaríamos santos. Portanto, vale a pena refletir sobre eles, a fim de rejeitá´los, com o auxílio da graça de Deus e de nossa vontade.

Santa Catarina de Sena aconselhava a ´entrar na cela do auto´conhecimento´ para conhecermos a nossa miséria e a grandeza de Deus. Assim nos tornaremos humildes.

Nesta reflexão queremos analisar´nos, sob a experiência da Igreja e da Palavra de Deus, a fim de lutarmos, com o auxílio da graça, contra essas ervas daninhas que querem tomar a nossa alma.

Um sábio provérbio chinês garante que ´não é a erva daninha que mata a planta, mas a preguiça do agricultor´.

Sem preguiça espiritual, qual bom jardineiro de Deus, comecemos a limpar o jardim da nossa alma.

Mas esta limpeza não deve provocar em nós remorso, e sim arrependimento. O remorso gera na pessoa a angústia e o desespero; não é o que Deus quer. Ele deseja o arrependimento e o propósito de mudança.

Judas e Pedro pecaram gravemente; o primeiro abrigou na alma o remorso e se matou; o segundo, pela graça de Deus (´Simão, eu orei por ti´´ Lc22,31), arrependeu´se amargamente e chorou copiosamente. Foi perdoado por Jesus, e continuou sendo o escolhido para ser o primeiro chefe da Igreja do Senhor.

O QUE É O PECADO?

Antes de nos determos na análise dos pecados capitais, conheçamos um pouco daquilo que a Igreja nos ensina sobre a natureza do pecado.

O grande Agostinho de Hipona dizia que ´o mal consiste em abusar do bem´, e ainda:

´O pecado é o motivo da tua tristeza. Deixa a santidade ser o motivo da tua alegria.´

O Catecismo começa dizendo que:

´O pecado é uma falta contra a razão, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro, para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens´. (CIC, §1849)

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, viam´no como uma ´desordem´, e diziam que é ´uma palavra, um ato ou um desejo contra a lei eterna´. (Faust. 22; S.Th.1´2, 71,6)

Ainda para Santo Agostinho ele é fruto do ´amor de si mesmo até o desprezo de Deus´. (Civita Dei 14,21)

Jesus ensina que a raiz do pecado está no coração do homem:

´Com efeito, é do coração que procedem más inclinações, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São estas coisas que tornam o homem impuro´. (Mt 15, 19´20)

Segundo a sua gravidade, a Igreja classifica os pecados em veniais e mortais, seguindo a sua própria Tradição.

O pecado mortal leva o pecador a perder o ´estado de graça´, isto é, a ´graça santificante´. O Catecismo afirma que:

´Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso.´ (§1861)

O Catecismo ainda ensina que ´o pecado mortal destrói a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus, desvia o homem de Deus, que é seu fim último e bem aventurança, preferindo um bem inferior.´

São Tomás de Aquino assim explica:

´Quando a vontade se volta para uma coisa de per si contrária à caridade pela qual estamos ordenados ao fim último, há no pecado, pelo seu próprio objeto, matéria para ser mortal... quer seja contra o amor a Deus, como a blasfêmia, o perjúrio, etc., ou contra o amor ao próximo, como o homicídio, o adultério, etc. Por outro lado, quando a vontade do pecador se dirige às vezes a um objeto que contém em si uma desordem, mas não é contrário ao amor a Deus, e ao próximo, como por exemplo palavra ociosa... tais pecados são veniais´. (S. Th. 1,2, 88,2; CIC §1856)

É bom notar que para haver o pecado mortal é preciso que a pessoa queira deliberadamente, isto é, sabendo e querendo, uma coisa gravemente contrária à lei de Deus e ao fim último do homem.

Portanto, para que haja pecado mortal deve haver pleno conhecimento e consentimento; e quem peca deve saber e deve ter consciência do caráter pecaminoso do ato a praticar, e de sua ofensa à Lei de Deus.

A ignorância involuntária, isto é, aquela que a pessoa não tem culpa, pode diminuir ou até eliminar a culpa diante de uma falta mesmo grave, mas é bom lembrar que Deus imprimiu nas consciências dos homens, a Lei natural, isto é, os princípios da moral. (cf. CIC §1860). A Igreja reconhece que os movimentos da sensibilidade da pessoa, bem como o mecanismo das paixões, as pressões exteriores, as perturbações patológicas, etc., em certos casos, podem , diminuir o caráter voluntário e livre do pecado cometido, e conseqüentemente a sua culpa. (cf. CIC §1860)

O Catecismo lembra que:

´O pecado por malícia, por opção deliberada do mal, é o mais grave´. (§ 1860)

Acontece a malícia quando há uma intenção maldosa, uma ´exploração do mal´, por sagacidade, sátira, comércio, etc. É diferente o pecado daquele que sucumbiu por fraqueza, daquele que explorou o pecado. Por exemplo, é muito mais grave explorar a prostituição do que cair nela, eventualmente, por fraqueza, embora ambas as quedas sejam graves.

´É pecado mortal todo pecado que tem como objeto uma matéria grave, e que é cometido com plena consciência e deliberadamente´. (§1857; RP, 17)

´A matéria grave é precisada pelos dez mandamentos segundo a resposta de Jesus ao jovem rico: ‘Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe’. (Mc 10,19)´ (CIC§ 1858)

Portanto, a gravidade dos pecados pode ser maior ou menor conforme o dano provocado pelo mesmo. Também a qualidade da pessoa ofendida entra em consideração. Ofender ao pai é mais grave que ofender um estranho.

Santo Afonso de Ligório, doutor da Moral, diz que o ´pecado mortal é um monstro tão horrível, que não pode entrar numa alma que por longo tempo o destestou, sem se fazer claramente conhecido.´

Dizia ainda o santo doutor que o pecado mortal é aquele que se comete de ´olhos abertos´; isto é, sem dúvidas do mal que se está praticando.

O pecado venial acontece quando não se observa a lei moral em matéria leve, ou então quando se desobedece à lei moral em matéria grave, sem perfeito conhecimento ou consentimento (cf. CIC §1862). Não nos torna contrários à vontade de Deus e à sua amizade; não quebra a comunhão com Ele, e portanto, não priva da graça de Deus e do céu.

Contudo, não se deve descuidar dos pecados veniais, pois, eles enfraquecem a caridade, impede a alma de crescer na virtude, e, quando é aceito deliberadamente e fica sem arrependimento, leva a pessoa, pouco a pouco, ao pecado mortal.

Santo Agostinho lembra que ´o acúmulo dos pequenos vícios traz consigo a desesperança da conversão´.

´O homem não pode enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes: se os consideras insignificantes ao pesá´los, treme ao contá´los. Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então a nossa esperança? Antes de tudo a confissão...´ (Ep. Jo 1,6; CIC §1863)

Muitos perguntam o que é o pecado contra o Espírito Santo. A Igreja ensina que é o daquele que rejeita livremente acolher, pelo arrependimento, a misericórdia de Deus, ´rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo´. É o endurecimento do coração, a tal ponto, que leva a pessoa a rejeitar até a penitência final. Se morrer neste triste estado, experimentará a perdição eterna. (cf. CIC §1864)

O pecado gera na pessoa uma tendência ao próprio pecado. Podemos dizer que quanto mais se peca, mais se está predisposto ao pecado. A repetição torna´se vício. E assim, nasce na pessoa a inclinação à perversão, obscurece´se a consciência, e vai se perdendo o discernimento entre o bem e o mal. Não foi sem razão que o Papa Paulo VI disse certa vez que, o pior pecado deste mundo é achar que o pecado não existe. A prática do pecado, continuamente, faz com que a pessoa perca a noção da sua gravidade. No entanto, por pior que seja, o pecado não consegue, de todo, ´destruir o senso moral até a raiz´. (CIC §1864)

Diante de nossos pecados, não adianta se desesperar ou desanimar; a única atitude correta é enfrentá´los com boa disposição interior e com a graça de Deus. São Francisco de Sales, bispo e doutor da Igreja, dizia que não adianta ficar ´pisando a própria alma´, depois de ter caído no pecado.

Até mesmo os nossos pecados, aceitos com humildade, podem nos ajudar a crescer espiritualmente. Santo Afonso de Ligório dizia:

´Mesmo os pecados cometidos podem concorrer para a nossa santificação na medida que a sua lembrança nos faz mais humildes, mais agradecidos às graças que Deus nos deu, depois de tantas ofensas´.

DO Livro: PECADOS E VIRTUDES CAPITAIS ´ DO Prof. Felipe de Aquino

Paixão de Cristo em favor dos pobres, segundo Ratzinger

“Onde está Deus? Por que pudeste criar tal mundo? Por que podes ficar vendo como, muitas vezes, precisamente as tuas criaturas mais inocentes sofrem de modo mais terrível, são levadas como ovelhas para o matadouro, não podendo abrir a boca?” (1)

Perguntas como essas se tornam comuns e são difundidas nos meios de comunicação ateus, ao passo que nós, cristãos, muitas vezes encontramos dificuldades para responder questionamentos neste sentido.

O século XX foi o século da tecnologia, onde nasceram as grandes indústrias, as novas conquistas da ciência, da computação, da internet, dentre tantas outros avanços que hoje já fazem parte de nossas vidas cotidianas, mas, por outro lado, também ficou conhecido como o século das guerras e das mortes: foram duas grandes guerras mundiais, o nazismo, o comunismo, a Guerra Fria, a guerra no Vietnã, e tantas outras que, juntas, deixaram centenas de milhões de mortos.

O momento mais terrível da paixão de Nosso Senhor, sem sombra de dúvidas, foi no instante em que ele gritou em voz alta: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?”(Mt 26,46; Mc 15,34). Esse grito, não pode ser entendido apenas de forma histórica, hoje “o eco deste grito ressoa mil vezes, multiplicado nos nossos ouvidos: do inferno dos campos de concentração, das frentes de batalha de luta de guerrilha, dos quarteirões de miséria dos famintos e desesperados.”(2).

Em cada pessoa sofrida, faminta, vítima da pobreza ou de crimes que se multiplicam a todo dia, é Cristo que continua a gritar:“ Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”, e com isso, neste século XX toda a humanidade foi como que transportada àquele momento da paixão repetindo o mesmo grito de forma constante. (3)

Meu Deus, meu Deus, porque abandonastes o teu povo?

O povo sofrido que vive no deserto da fome continuam a fazer essa pergunta sem cessar, assim surge uma proposta marxista pretendendo dar solução terrena a essas necessidades temporais dos pobres, e, mais em evidência nos dias atuais, uma teologia mundana (Teologia da Libertação) que pretende colocar o alimento corporal acima do alimento espiritual. “O pão é importante, a liberdade é importante, mas o mais importante de tudo é a adoração.” (4) Onde esta ordem dos bens não for respeitada, mas invertida, não haverá nenhuma justiça. (5). E não é somente a mentalidade marxista que comprova essa Verdade. Foi esse tipo de “ajuda” para o desenvolvimento ocidental com base em princípios puramente técnicos e materiais que criou o Terceiro Mundo, substituindo as estruturas religiosas, morais e sociais, instaurando no vazio uma mentalidade tecnológica (6).

Ao tentar Jesus, o diabo prometeu transformar as pedras em pão, mas foi o resultado foi exatamente o contrário: pães transformados em pedras.(7)

Ainda sobre a atual dualidade que remonta os tempos da Guerra Fria convém lembrar que a propagação do cristianismo não leva automaticamente à melhora do mundo e que a salvação que vem de Deus não é nenhuma grandeza quantitativa. “Não é, por si só, a instituição de um novo sistema político e social que excluiria a desgraça” (8), portanto uma teologia que defenda esse princípio não pode ser verdadeira, nem tampouco deve ser chamada de cristã.

Então, como podemos, afinal explicar o sofrimento do mundo que clama cada dia mais por misericórdia e justiça? De fato, todos nós temos uma parcela de culpa no sofrimento dessas pessoas, pois, todas as vezes que ficamos sentados em nossas poltronas, assistindo como meros espectadores os terrores que acontecem a nível global é a Jesus que deixamos de ajudar (Cf. Mt 25,45).

Também devemos ter claro que essa pergunta não pode ser respondida somente com palavras e argumentos porque atinge uma profundidade que o intelecto não é capaz de alcançar: “Essa realidade só pode ser suportada, sofrida, com Jesus, perto de Jesus que a sofreu por todos nós e conosco.” (9)

Um dos erro dos marxistas é exatamente a tentativa perversa de destruir a promessa da consolação das Bem-Aventuranças (Cf. Mt 5,4) e exigir uma mudança humana, sem a necessidade de um auxílio divino. (10).

A salvação não se dá neste mundo, pois o próprio Jesus afirma perante Pilatos que o teu Reino não é deste mundo (Cf. Jo 18,36), “a salvação do mundo não vem de uma mudança ou de uma política absolutamente estabelecida que se tornou divina. Deve-se trabalhar na transformação do mundo continuamente: com sobriedade, realismo, paciência, humanidade. Mas há uma exigência e uma pergunta do homem que ultrapassa tudo o que podem realizar a política e a economia, capaz de ser respondida só por Cristo crucificado, pelo homem no qual o nosso sofrimento toca o coração de Deus, o amor eterno.” (11)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Por que o sofrimento?

Por que Deus permite o sofrimento?

O homem de hoje é muito sensível ao sofrimento e ao mal. Diante de notícias negativas que continuamente se apresentam, surge espontaneamente a questão: Por que Deus permite o sofrimento? É uma pergunta comum, mas que muitas vezes fica sem resposta.

Santo Agostinho, nas suas famosas Confissões, se interrogava: se tudo o que existe foi criado por Deus, que é Bondade Infinita, como pode existir o mal? Alguém também poderia perguntar-se: O mal é uma prova de que Deus não existe? Ou que não existe um Deus Bondoso e Todo-poderoso?

Quantas vezes dizemos: – Que injusto! Isto não deveria acontecer! – Deus não o deveria permitir! Enfim, somos ótimos fenomenólogos da palavra “dever”, temos a percepção humana do estado ideal das coisas. O sentimento para o “deve” é universal, assim como a existência de um Deus Todo-poderoso. E é justamente Deus quem quer e pode realizar aquele “deve” que todos sentem na consciência.

Meu professor de filosofia dizia que somente em um mundo com Deus o mal não deveria existir; enfim, somente em um mundo que poderia ser diferente, o sofrimento pode ser sofrimento e não apenas um fato. O contrário seria como perguntar pela cor de um gato voador. Sem Deus, o sofrimento nem seria algo negativo, mas um sem-sentido.

A reflexão filosófica nos ajuda. Mas o que é realmente o sofrimento? Seu significado tem muito a ver com o modo de enfrentá-lo. Não é exclusivamente negativo, mas depende em grande medida do que fazemos com ele. Você se perguntou alguma vez o que Deus quer para você? Atenção, Deus é onipotente! Mas é hora de responder o que Deus quer para mim.

Se Deus é onisciente, Ele sabe melhor o que nos convém em cada momento. É uma questão que requer sinceridade: não queremos sempre o que mais necessitamos. Facilmente nos irritamos quando o nosso avião tem um atraso, mas talvez sem sabermos que foi por causa de uma bomba encontrada em uma bagagem anônima! É fácil deixar algo para receber algo melhor: um carro Fiat por um Ferrari. Deus também age assim conosco, mas Ele sabe o que mais nos convém: ser feliz usando a nossa liberdade.

Deus existe, é onipotente, ama todos, nos oferece a felicidade e, apesar de tudo, deixa-nos livres para dizermos não e estragarmos o Seu plano. Se tudo isso é verdade, quem é que realmente sofre quando o sofrimento bate às nossas portas?

Bento XVI, na sua encíclica Spe salvi, afirma que “o que cura o homem não é esquivar o sofrimento e fugir diante da dor, mas a capacidade de aceitar a tribulação, amadurecer nela e encontrar nela um sentido mediante a união com Cristo, que sofreu com amor infinito”. É norma geral que, quem mais ama, mais sofre.

Seminarista Jauri Strieder

Dia Internacional da Mulher

Há mulheres em minha vida, logo, sou feliz!

Muitas pessoas passam por nossa vida e não poderíamos deixar de mencionar a participação daquelas que deixaram marcas sensíveis em nossas lembranças. Trazemos vivos na memória os cuidados da nossa mãe, que se desdobrava 24 horas do dia se fosse necessário, as recordações de nossas férias na casa da vovó, da professora que nos ensinou a ler, entre muitas outras.

Numa simbiose perfeita, não há como identificar se foram elas que entraram em nossas vidas ou fomos nós que fizemos parte da vida delas. O zelo dispensado para cada um de nós, quando éramos crianças, fazia-nos sentir tal como “reizinhos”, mesmo se naquele “castelo” as refeições fossem racionadas em vista da pobreza. Na escola, além da professora, ganhávamos também uma “tia”, que não se importava se houvesse 30 outros "sobrinhos" chamando seu nome ao mesmo tempo. Por menor que tenha sido o período em que elas estiveram conosco, grande foi a atenção e a contribuição dispensada para cada um de nós.

No mundo, algumas mulheres se despontaram através do trabalho, impulsionadas por seus sonhos e, não menos importantes que essas, reconhecemos o papel de outras que foram moldura da realização dos nossos próprios projetos. Lamentavelmente, em alguma parte do planeta ou escondidas entre quatro paredes, existem mulheres que são tratadas sob o domínio da tirania, da incompreensão, da maldade e do preconceito de alguns homens. Todavia, mesmo sendo subjugadas por seus opressores, estes não conseguem tirar a força da esperança que as incita a continuar acreditando em dias melhores.

Com a versatilidade que causaria inveja ao melhor contorcionista, as mulheres trazem como virtude a habilidade de se fazer amiga, mãe, esposa, namorada, formadora… e por dádiva divina, a elas foi outorgado o título de “ajuda perfeita”.

Não é à toa, que sem muito esforço, a gente consegue perceber o quanto tem sido importante para cada um de nós a participação delas em nossa vida.

Tudo bem se, às vezes, demoram um pouco mais para escolher a roupa para sair, para se decidir na compra de um simples sapato ou para levar na bolsa apenas aquilo que realmente é necessário…mas, ainda assim, não podemos negar o quanto somos felizes ao lado delas!

Parabéns, mulheres, pelo seu dia!